Publicado em janeiro, o relatório Falência Hídrica Global traz algumas constatações alarmantes ao planeta. O documento, elaborado pelo Instituto da ONU para Água, Meio Ambiente e Saúde (INWEH, na sigla em inglês) compara a situação da água à de uma falência judicial ou bancária e indica que o mundo já está em contexto de crise com relação à água, em função, entre outros pontos, da irregularidade do regime de chuvas e estiagens, a elevação da temperatura mundial e a ameaça aos “nascedouros” e reservatórios, como aquíferos, áreas alagadas, rios e geleiras.
As consequências, já sentidas, refletem-se na perda de nível dos grandes lagos nas últimas três décadas; na drenagem de uma área alagada equivalente à União Europeia nos últimos 50 anos; e no aumento do uso de água subterrânea para consumo humano e agricultura. Professor da Universidade de Brasília, Henrique Leite aponta que “o relatório é sério e traz problemas que teremos de lidar nos próximos anos”. Ele aponta, ainda, que embora o Distrito Federal esteja bem abastecido nos últimos anos, a realidade nos arredores da capital é preocupante.
“O fenômeno La Niña [que intensifica o regime de chuvas entre dezembro e fevereiro] tem nos resguardado nos últimos anos, ao contrário do que aconteceu em 2017, mas uma hora ele deixa de acontecer”, pontua.
O especialista ainda aponta, em artigo, que o ritmo de consumo, redução do volume de chuvas em cerca de 20%, crescimento populacional e desperdício na captação e distribuição deitarão pela metade a capacidade hídrica do Distrito Federal nas próximas cinco décadas. “A preocupação com a água tem que estar na ordem do dia; hoje, a sociedade se preocupa com segurança, saúde, mas a questão hídrica é só quando tem alguma crise”, aponta o especialista, que leciona a disciplina de Manejo de Bacias Hidrográficas. “É preciso agir agora e investir em infraestrutura, que está deteriorada”, indica o docente.
Um exemplo são as Áreas de Proteção de Mananciais (APMs), estruturas jurídicas criadas para resguardar locais de nascentes e córregos, essenciais para a renovação da água estocada no DF. E o cenário é crítico: das 26 registradas pelo poder público, cerca de 15 possuem problemas estruturais e/ou sofrem com a especulação imobiliária, conforme levantamento do Jornal de Brasília. Questionada pelo JBr., a Secretaria de Meio Ambiente (Sema) reconheceu “que parte das APMs apresentam desafios decorrentes de processos históricos de ocupação e uso do solo”.
Além disso, pontuou que atua “na formulação, coordenação e monitoramento de políticas ambientais (…) por meio do planejamento ambiental, fortalecimento da governança das APMs, apoio à implementação de planos e ações de recuperação e proteção dos mananciais”. A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), por sua vez, afirmou à reportagem que “atua fixando metas de perdas mais rígidas que as federais; exigindo planos, estratégias e execução de ações de redução de perdas e monitorando tecnicamente os resultados por meio do Balanço Hídrico e dos indicadores oficiais”.
Soluções locais para um problema global
Num rincão da zona rural Alexandre Gusmão, em Brazlândia, escondida por algumas árvores típicas do Cerrado, está a propriedade de Marcos Almeida, o Marcão, de 50 anos. Ele chegou ao local ainda criança, e vive no e do mesmo lote até hoje. “Meu pai era mestre de obra, sofreu um acidente e veio para cá, de muleta e tudo. Ele que plantou as primeiras árvores”, diz, orgulhoso, ao indicar a plantação. Entre as culturas cultivadas no terreno – em um dos 5,5 hectares do local -, destaca-se o morango, uma das que mais consome água entre os tipos de lavoura.
A “época” da fruta vai de meados de abril até o final de setembro, período que engloba também a estiagem no Distrito Federal. Para manter a produção entre 10 mil e 12 mil morangos anuais, Almeida precisa de algo próximo a 800 litros de água para o ciclo. “A irrigação para pequenos produtores é muito importante, pois garante a frequência e a qualidade da produção”, aponta Antônio Dantas, engenheiro agrônomo e extensionista rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF).
“Eles não usam mais água porque querem, mas por desconhecimento dos métodos mais eficientes de irrigação e pela falta de equipamento, que realmente é caro”, indica. Nesse ponto, parcerias da Emater com produtores rurais têm ajudado a aprimorar – e a reduzir – o consumo de água. No caso de Almeida, a consultoria viabilizou a oferta de equipamentos como bombas, reservatórios e cabeamento. O consumo caiu 40% e chegou a cerca de 400 litros por ano para a produção dos morangos.
“Pela experiência, eles costumam irrigar 50% a mais do que o necessário. Nosso papel é mostrar como isso é prejudicial inclusive para a produção”, completa Dantas, ao explicar que solos úmidos desenvolvem doenças e escorrem os nutrientes junto com a água. Para Marcão, é um alívio inclusive no bolso. “Eu estava gastando mais porque minha bomba estava superdimensionada, então gastava mais energia e jogava mais água do que era preciso”, explica. “Corria até o risco de perder a produção”, completa.
Desperdício alto, mas abaixo da meta
De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS), o Distrito Federal está abaixo da média nacional de perda d’água, com 31,4% da produção escorrendo por falhas estruturais na captação, no armazenamento ou na distribuição hídrica. O índice fica abaixo da média nacional, fixada em 40,3%, e é a terceira menor do país entre as unidades federadas. Na outra ponta, Alagoas chega a 69,4% de desperdício. Os dados se referem a 2023, último ano com informações disponíveis no portal do SNIS, e reforçam o recado para reformas na infraestrutura, ainda que o período atual nos deixe com boas reservas no curto prazo.
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