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terça-feira, 21 de julho de 2026
Distrito Federal

Horta Comunitária do Guará transforma terreno abandonado em espaço de acolhimento, alimento e esperança


A cada 15 dias, a cuidadora de idosos Jaciane da Silva, de 51 anos, reserva a manhã de sábado para um compromisso que se tornou parte da rotina da família. Ao lado da filha, de 6 anos, ela troca a correria do dia a dia pelo contato com a terra, participa do plantio, ajuda na colheita e volta para casa com uma cesta de hortaliças cultivadas sem agrotóxicos. Mais do que os alimentos, ela diz levar esperança, tranquilidade e novas amizades.

“Além de levar alimentos naturais para casa, sem veneno e sem agrotóxicos, a convivência faz toda a diferença. Minha filha participa de tudo, a gente planta, cuida da terra, colhe e ainda faz amizades. Quando não consigo vir, sinto muita falta”, conta.

Jaciane conheceu a Horta Comunitária do Guará há cerca de dois anos, enquanto passava em frente ao espaço, próximo de onde mora. A curiosidade em conhecer o terreno, sempre limpo e bem cuidado, foi suficiente para mudar sua rotina. “Se todo mundo conhecesse a horta, participasse e contribuísse, veria como é maravilhoso. Você sente a energia da natureza, aprende a cuidar da terra e das pessoas. É um lugar que faz muito bem.”

A experiência vivida por Jaciane resume a proposta da Horta Comunitária do Guará, iniciativa que transformou um terreno antes marcado pelo abandono em um espaço de convivência, produção de alimentos orgânicos e fortalecimento dos laços comunitários. Mantido por voluntários, o projeto completa nove anos de atuação e continua reunindo moradores.

Quem passa pela Quadra 38 do Guará talvez não imagine que, onde hoje há canteiros verdes, ervas medicinais e voluntários dividindo colheitas, existia um terreno tomado por lixo, abandono e vandalismo. O espaço, que já foi ocupado por moradores em situação de rua e utilizado para descarte irregular de resíduos, deu lugar a uma das hortas comunitárias mais conhecidas do Distrito Federal.

O projeto, como existe hoje, nasceu em julho de 2017, quando a engenheira ambiental Dai Ribeiro, de 44 anos, decidiu recuperar uma tentativa frustrada de implantação da horta feita anos antes. Desde então, centenas de moradores passaram pelo local, onde trabalham de forma voluntária, compartilham alimentos e fortalecem os laços da comunidade.

“Ela mobilizou amigos e familiares e começou a dar vida àquele espaço. A vizinhança foi percebendo que algo diferente estava acontecendo. As pessoas começaram a chegar, colocar as mãos na terra e entender que aquele lugar fazia sentido”, relembra Elza Aparecida, líder comunitária responsável pelo acolhimento de novos participantes.

Do abandono ao cultivo coletivo

A história da horta começou antes mesmo de 2017. Em 2010, o local recebeu um projeto do Governo do Distrito Federal, mas a iniciativa acabou abandonada por falta de mobilização popular. Sem uma coordenação responsável, o espaço voltou rapidamente a ser um terreno baldio. “Não houve engajamento da comunidade. A horta ficou largada, começou o vandalismo e as pessoas voltaram a jogar lixo ali. Ficou triste de novo”, conta Elza.

Foi justamente essa realidade que motivou Dai Ribeiro a assumir o projeto. Aos poucos, o grupo inicial de poucos voluntários foi crescendo. O trabalho começou a ser divulgado nas redes sociais e moradores passaram a participar dos mutirões.

Hoje, embora a área seja bem menor do que no passado, o espaço continua reunindo pessoas de diferentes regiões do Distrito Federal.

Muito além da produção de alimentos

Quem conhece a horta pela primeira vez costuma imaginar que o objetivo seja apenas cultivar hortaliças. Para quem participa da rotina do projeto, no entanto, o maior fruto colhido é outro. “O impacto vai muito além da produção de alimentos. A convivência mudou. As pessoas passaram a se respeitar mais, a cuidar umas das outras. Muitos dizem que chegam cansados, mas voltam para casa com a cabeça renovada, com esperança e paz”, afirma a líder comunitária.

Segundo Elza, a experiência transforma também a relação dos participantes com a alimentação. Muitos descobrem, pela primeira vez, como nascem alimentos como cenoura, beterraba e alface, passam a valorizar os produtos orgânicos e adotam hábitos mais saudáveis.

“O comportamento muda. Eles aprendem a cuidar da terra, mas também aprendem a cuidar das pessoas. Quem aprende uma técnica faz questão de ensinar quem acabou de chegar.”

Além da alimentação saudável, a convivência fortalece os vínculos entre os participantes. Os encontros quinzenais reúnem pessoas de diferentes idades e profissões, que compartilham conhecimentos, experiências e constroem amizades em torno do cultivo coletivo.

Transformação profissional

Cursos de horticultura realizados em parceria com instituições permitiram que alguns voluntários deixassem antigos empregos para atuar como jardineiros, horticultores e microempreendedores.

Além disso, universidades utilizam a experiência da horta como objeto de pesquisa. “Recebemos estudantes da UnB que desenvolveram pesquisas sobre trabalho comunitário. Saber que nosso trabalho também produz conhecimento é motivo de orgulho.”

Resistência diante das dificuldades

Manter uma horta totalmente gratuita nunca foi simples. Desde o início, a maior dificuldade é financeira. Ferramentas, sementes, adubos e manutenção dependem de doações e do trabalho voluntário.

Mas o maior golpe veio em 2023. Uma intervenção da Terracap reduziu drasticamente a área cultivada. Dos cerca de mil metros quadrados e 43 canteiros existentes, sobraram apenas dez canteiros.

“A gente viveu um luto. Parecia que tudo tinha acabado. Mas depois nos reunimos e decidimos continuar com o que restou. Criamos novas formas de plantar, passamos a produzir microverdes e seguimos em frente”, lembra Elza. 

Mesmo reduzida, a horta continua distribuindo entre 20 e 30 cestas de hortaliças a cada encontro comunitário. E como o bem que chega à uma mão vem de outra, a rotina diária é mantida pelo senhor Domingos, que atua na horta há cerca de sete anos por meio de um programa de remição de pena. Já aos sábados, voluntários e líderes realizam mutirões de plantio, limpeza e colheita.

Tudo o que é produzido é dividido igualmente entre os participantes conforme a ordem de chegada. O excedente segue para uma creche da região. “Ninguém compra nada. A pessoa participa da missão do dia, ajuda no trabalho e leva sua cesta para casa. É uma partilha”, explica Elza.

Reconhecimento

O trabalho desenvolvido na região também ganhou reconhecimento institucional. A Administração Regional do Guará recebeu destaque no Prêmio Sebrae DF Cidade Empreendedora pelo projeto “Plantando o Futuro”, realizado conjunto com a Horta Comunitária da QE 38 e o Instituto Arapoti, uma iniciativa voltada à formação de jovens em horticultura urbana, empreendedorismo e inclusão produtiva. A proposta fortalece ações ligadas à agricultura urbana e ao desenvolvimento sustentável na cidade.

Para Elza, no entanto, o maior prêmio continua sendo o reconhecimento diário da comunidade. “Ver uma criança colher um alimento pela primeira vez, ver pessoas que chegaram aqui tristes e hoje sorriem de novo, isso não tem prêmio que pague.”

Um sonho que continua crescendo

Apesar das dificuldades, os voluntários seguem fazendo planos. Entre eles estão novos cursos de liderança, educação financeira e comunicação não violenta, preparando o grupo para uma futura ampliação da área cultivada, mas o maior desejo é fortalecer ainda mais o vínculo com os moradores do Guará.

“Meu sonho é ver a comunidade vestindo a camisa da horta. Que ela seja um motivo para as pessoas se unirem não apenas em torno do plantio, mas do próprio Guará. A horta mostra que viver em comunidade dá certo. Juntos somos mais fortes.” Conclui Elza.


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